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O texto da liga…

Posted in Atualidades,Futebol por Morgana Gualdi Laux em abril 25, 2010

O futebol gaúcho, no início do século 20, não aceitava a participação de negros e mulatos em clubes como o Grêmio, Inter e Cruzeiro de Porto Alegre. Incoformados, os excluídos formaram a Liga da Canela Preta – campeonato em que qualquer indivíduo podia jogar, independentemente da raça. Jayme Moreira da Silva, hoje com 93 anos, foi personagem dessa incrível história do esporte rio grandense.

A data de fundação da liga perde-se entre 1911 e 1912. Com uniformes confeccionados e botinas amaciadas pelo desgaste dos jogos praticados no campo localizado na rua Arlindo, os atletas negros faziam parte de um campeonato praticado em dois turnos, lembrando o atual sistema do Brasileirão. Alguns clubes que faziam parte: 8 de Setembro, Rio Grandense, Palmeiras e Bento Gonçalves.

– A Rua Arlindo era uma grande várzea, um gramado da própria natureza. Ali ficavam os campos da liga da Canela Preta. O 8 de Setembro treinava no local e também na Oswaldo Aranha, no Parque Farroupilha e também, de frente à Oswaldo Aranha, na Fernandes Vieira – lembra Jayme, ex-jogador da Liga.

A realização dos jogos acontecia também na Rua Arlindo, atual Praça Garibaldi, bairro Cidade Baixa. No endereço, havia três campos de futebol, sendo eles o Riograndense, o Palmeiras e o Ford (clube fundado na Rua 7 de setembro por motoristas que dirigiram os primeiros carros na capital). Para assistir aos jogos, os torcedores já pagavam ingresso:

– Tinha que pagar ingresso na época. Era baratinho. Mas, nada era de graça. – comenta o atleta.

Alguns clubes da Liga da Canela Preta também contavam com quadro de sócios:

– Podia se associar no clube. Lembro-me que no 8 de Setembro podia sim. Além disso, havia outros que eram bem organizados – lembra Jayme, que também pertenceu à diretoria do clube Oito de Setembro, organizando bailes.

A liga reunia um número de torcedores de destaque. No término do campeonato, havia desfile pelas ruas, na Praça Garibaldi, João Alfredo, e alguns pontos da Cidade Baixa até a Oswaldo Aranha. Nas cerimônias, as rainhas de cada clube se apresentavam.

No entanto, nem tudo era festa. Assim como Grêmio e Inter apresentavam rivalidade desde a origem, 8 de Setembro e Rio Grandense eram rivais acirrados.

– O pessoal da colônia chamava o pessoal do Riograndense de os mulatinhos cor-de-rosa. Eles faziam parte da família Cunha, família da Zona U ( atualmente local que contempla a parte da João Pessoa até a margem do Guaíba). A família Cunha era uma família por cima, então para abusar dizíamos que eram os mulatinhos cor-de-rosa – brinca o ex-atleta.

Os nomes feios e xingamentos por parte de jogadores eram ditos por conta da disputa fora de campo, em decorrência dos cargos ocupados por cada um:

– Brigávamos com os Cunha porque eles sempre tiveram posição no governo, por serem empregados de categoria e do tribunal de justiça. Mas em nenhum momento ocorreram brigas físicas.

Os jogadores da Liga da Canela Preta não eram remunerados com salários, apenas recebiam pequenas ajudas de dirigentes do clube ao qual pertenciam, começaram a sentir interesse pelas instituições maiores. Coincidentemente, a liga tradicional abriu a segunda divisão no ano de 1922, ocasionando oportunidades para jogadores negros e facilitando a decadência da Liga da Canela Preta.

O campeonato, então, perdeu força e os craques de maior habilidade acabaram por preencher lugares em clubes de expressão como o Internacional. Em 1928, Dirceu Alves entrou para o elenco do colorado, sendo o primeiro jogador negro. Logo após, outros conquistaram espaço. No ano de 1931, período em que Jayme atuou na liga, jogadores da Liga da Canela Preta almejavam espaço no Internacional:

– Eles tinham vontade de ir para o Inter para arrumar emprego de destaque. Alguns recebiam em salário. Um conhecido, por exemplo, jogador do Inter, na época em que eu trabalhei numa empresa, comprava roupa lá, por conta do clube. Então, já era salário, o atleta estava ganhando alguma coisa – revela Jayme.

Como os grandes clubes se abriram para os negros, sobretudo nos anos 40, a Liga da Canela Preta foi perdendo sua razão de ser. Foi se esvaindo aos poucos, até desaparecer em silêncio.

Quase um século de futebol

Jayme Moreira da Silva, ex- jogador de futebol, conciliou partidas da Liga da Canela Preta com os estudos realizados no colégio Paulo Soares. Filho de pai branco e mãe mulata, ele atuou no clube 8 de Setembro em 1930, quando apresentava apenas dezesseis anos.

O ex-jogador também pertenceu à diretoria do clube. Aos dezessete anos, organizava bailes no salão Rui Barbosa. Na época, Jayme ainda era responsável pelos convites e pela formação dos quinze pares para a festa. Os pares eram uma espécie de diretores, que ajudavam na arrecadação do dinheiro para os eventuais gastos.

Jayme também fundou um clube varzeano de verão chamado Paraná. O elenco contava até mesmo com Clarimundo, um alemão. No cenário futebolístico, o irmão de Jayme, Luiz, também se destacou pela habilidade e acabou sendo contratado pelo Internacional. Indisciplinado, não permaneceu por muito tempo no clube, pois assinou contrato com duas instituições, o que era proibido.

Desde a época de atuação na Liga da Canela Preta, o ex-jogador é torcedor gremista. Coincidentemente, ele chegou a vizinhar com o Eurico Lara:

– O Lara era um homem muito fechado. Eu me relacionava mais com os filhos dele, do que com ele. Mas para entrar nos jogos do Grêmio eu tinha que falar com ele. E ele dizia: “fica no portão que eu vou chegar tal hora, ai tu entra junto comigo”.

Jayme também esclarece a lenda sobre a participação de brancos no antigo campeonato:

– A maioria da Liga da Canela Preta era negro. No entanto, também jogava brancos.

Para o ex-atleta, algumas personalidades do futebol brasileiro conquistariam espaço no cenário futebolístico de 1930:

– Um jogador que brilharia na Liga da Canela Preta seria o Jonas do Grêmio. Do futebol mundial eu admiro o Ronaldinho Gaúcho, mas o principal foi o Pelé. É muito futebol, até enjoa, muita habilidade. Todos os dias têm futebol – brinca Jayme.

Prestes a completar 94 anos no dia 4 de novembro, Jayme Moreira da Silva reconhece as limitações que apresentava quando jovem, no entanto nunca esqueceu da preferência ao clube do coração:

– Eu daria preferência para o Grêmio se pudesse jogar na primeira divisão, mas não tinha condições.

Hoje, Jayme mora em uma residência no bairro Mont Serrat, acompanhado das filhas. Entretanto, o que resta a ele são apenas saudades dos tempos da Liga da Canela Preta:

– A minha saudades é muito grande, eu choro muito. Se ainda tivesse alguém para conversar, no entanto a maioria dos jogadores já morreu – menciona o ex-atleta, ex-diretor de clube e também ex-bancário.

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