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Um amor à prova da leucemia

Posted in jornalismo por Morgana Gualdi Laux em julho 13, 2009
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Saúde

Um amor á prova da leucemia

Casal de jovens descobre que é possível conviver com a doença.

Por Morgana Laux

Poucos dias antes de comemorar o quarto dia dos namorados ao lado de Diego Schuh, Debora Amanda Ostjen, uma jovem de 23 anos, com feições delicadas e olhos que mais parecem com bolitas verdes, planejou um dos dias mais importantes de sua vida. No dia doze de junho de 2009, ela não marcou um jantar romântico em um restaurante italiano, não assistiu a uma comédia com o companheiro e também não dormiu abraçada ao seu corpo, de modo a ser protegida. No dia dos namorados, Debora estava em um quarto branco e frio de hospital, sozinha, esperando a resposta positiva de um transplante de medula, que tentará salvar seu corpo pálido e debilitado pelo longo tempo em que se mostra com uma guerreira contracenando em uma verdadeira batalha.

O início do relacionamento

No ano de 2003, com a ajuda da Internet e do programa de bate-papo ICQ, Débora e Diego trocaram as primeiras palavras, que seriam lembradas pelo casal até hoje. Moradores de Sapiranga, uma pequena cidade do Rio Grande do Sul, com seus 70 mil pacatos habitantes, eles utilizaram o bate-papo para confirmar o interesse um pelo outro. Depois de descobrirem afinidades: gremistas, apreciadores oficiais de um bom churrasco e, claro, também internautas declarados, os dois resolveram trocar fotografias. Surpreso, Diego descobriu no instante em que visualizou a bela imagem da amiga virtual, que estava conversando com Debora. “Só fui me dar conta de que estava falando com aquela menina linda que já tinha visto quando ela me mandou uma foto. Vibrei como se tivesse acertado na loteria”, disse emocionado o jovem.

O primeiro beijo entre o casal demorou para acontecer, pois, a amizade, que se fortalecia a cada palavra no bate-papo, permaneceu até dezembro de 2004, quando os dois trocaram a primeira carícia. Nesse instante, o olho de Diego brilhou mais forte e o coração de Débora bateu intensificadamente. Quatro meses depois, no dia 17 de abril, o relacionamento foi oficializado. Por coincidência, a Internet foi o meio para declarar o amor que estava nascendo. “Um fato que nunca vou esquecer é que o início do namoro foi na época em que estava começando o contato do mundo com o Orkut. Um dia após pedir ela em namoro, eu ainda não conseguia acreditar muito no que acontecia. Então, liguei pra ela, para perguntar se podia colocar o status de namorando no meu perfil do Orkut. Desde então, o “namorando” nunca mais saiu de lá”.

A descoberta da doença

Durante um ano de namoro, Débora e Diego eliminavam qualquer rótulo de namorados caseiros, uma vez que aproveitam à ida em festas, jantavam com amigos e sempre que podiam, saiam para se divertir. Parecia tudo normal no relacionamento dos dois: eles não brigavam, conseguiam compreender um ao outro no período de estudos, quanto a saídas e quanto aos compromissos pessoais. Mas, em uma quinta-feira do mês de setembro do ano de 2006, dia calmo e com temperatura amena, Debora compareceu a um clínico geral para receber resultados de exames que havia realizado devido à permanência de uma dor próxima as costelas do lado esquerdo do tórax. O dia foi marcado por um diagnóstico um tanto diferenciado para uma jovem, que aparentemente demonstrava saúde e beleza:

Debora estava com o tamanho do baço alterado, mas também anêmica, com leucopenia (redução do número de leucócitos no sangue, responsáveis pelas defesas do organismo) e com trombocitopenia (redução do número de plaquetas no sangue, que leva a uma maior tendência de apresentar hemorragia).

Após ser informada sobre a debilitação de seu corpo, Debora foi aconselhada a procurar imediatamente uma médica hematologista. A gravidade do problema fez a adolescente correr contra o tempo. Em busca de alguém para lhe ajudar, ela voltou ao trabalho para cancelar qualquer atividade, mas também para marcar uma consulta o quanto antes. A única médica que se prontificou a atender Debora na mesma tarde, que se tornava opaca aos olhos da jovem, foi Ângela Warlet, do Hospital Regina, localizado em Novo Hamburgo. Debora, chegando ao local, teve de repetir todos os exames que já havia feito e, além disso, teve de realizar punções na medula óssea, assim como uma biópsia. Era noite, quando o mundo da menina veio a baixo, quando tudo ficou preto, quando ela fechou os olhos para abri-los novamente e voltar a realidade: Debora estava com leucemia linfóide aguda (LLA), comum em crianças e fácil de ser curada.

Após o diagnóstico, Debora passou a conhecer as dificuldades que teria em pouco tempo. Na mesma noite, foi internada. O que parecia ser uma simples gripe havia se transformado em uma doença assustadora, para uma jovem cheia de planos. Protocolos de quimioterapia, mesmo sendo menos agressivos que um transplante de leucemia, no momento, passaram a ser a realidade de Debora. Uma realidade tomada pela solidão, pois os amigos da faculdade de arquitetura e urbanismo ela teve de esquecer, assim como a convivência com os pais e o conforto que a casa lhe proporcionava. Dia 21 de setembro de 2006 ficará marcado para sempre nos pensamentos de Debora e de seus entes mais queridos, que ficaram chocados com a notícia.

Contudo, Diego foi um dos últimos a receber a descoberta de que a namorada estava doente. Debora, que além de companheira, se mostrava desde o início como uma amiga, decidiu não contar ao namorado sobre a descoberta da leucemia, pois, no momento da triste revelação, que afetaria completamente o futuro dos dois, ele estava realizando uma prova. “Ela ficou sabendo da doença na tarde de uma quinta-feira, 21 de setembro de 2006. Nesse dia eu tinha prova na faculdade, e estava tranqüilo quanto o que ela tinha, pois imaginava que os sintomas que ela vinha tendo não seriam mais do que uma forte gripe. Mesmo sendo o pior momento da vida dela, ela deixou para me contar só na noite desse dia, já internada no hospital, e isso para que eu não ficasse nervoso e não perdesse a prova”, contou emocionado o jovem.

Compreendida melhor a doença, após muitas leituras na mesma Internet que uniu o casal, Diego se mostrou sensibilizado de tal forma, que não conseguiu dormir nas noites seguintes e, até mesmo, comer. “No momento em que ela me contou, não entendia muito bem o que se passava. Não conhecia muito a doença, e talvez isso tenha influído para eu dar as primeiras mensagens otimistas pra ela no telefone. Mas quando desliguei, fui direto para o computador para tentar entender um pouco melhor do que se tratava. Bem, nesse momento, perdi meu chão. Fiquei quatro noites sem dormir, e perdi cinco quilos logo na primeira semana, já que não tinha vontade de comer. Ao mesmo tempo, sabia que teria que ser forte e passar essa força para ela, por mais difícil que isso fosse no momento”, revelou o adolescente.

Diego realmente se mostrou forte e surpreendeu a todos, com a disposição de ficar ao lado de Debi (apelido carinhoso, no qual ele a chama) em todos os momentos tristes. Nos primeiros sete meses de tratamento, com a ajuda da mãe, Debora penteava o cabelo, de maneira que o trançava, para esconder os fios que caíam insistentemente e também para não aceitar a realidade. Cansado de ver a namorada mastigar tristeza dia após dia, Diego não hesitou ao rapar a cabeça, como um modo de incentivar a namorada a enfrentar um dos principais obstáculos: eliminar as longas mechas loiras que afinavam o rosto delicado. “Pedi uma máquina para as enfermeiras e raspei o cabelo. Foi um momento bastante marcante. Ela chorou por uns três dias depois disso, mas depois acabou se acostumando. Achei que essa seria uma forma de levantar a auto-estima dela, pra que ela visse que aquilo não era o fim e que ela não estava tão diferente assim”.

O corpo de Debora também reagia as fortes quimioterapias de outras formas. Além dos longos cabelos que foram caindo, as sobrancelhas também se perderam. Quando não estava internada, Debora sempre optou por utilizar chapéus, lenços e boinas, acessórios que realçavam a sua beleza, pois mesmo doente, era visível os belos olhos da jovem e o rosto de feições delicadas.

Debilitada pelo tratamento quimioterapico, os encontros entre Diego e Debora foram reduzidos a momentos no hospital ou então a pequenos espaços de tempo, em que o jovem deveria entender as conseqüências que a doença trazia ao corpo da namorada, como o enjôo e a baixa imunidade. Se Diego ficasse gripado, por exemplo, precisava esperar a gripe passar para ver Debora. Fora os fatores relacionados à saúde, por precaução ela também evitava ambientes fechados, em que havia aglomeração de pessoas. Sem dúvidas, esse fator influenciou a vida do casal. “Vivemos por um tempo em stand by, meio alheios ao que acontecia com o resto dos nossos amigos” conta Diego.

Sempre ao lado da namorada, o jovem encontrou outras formas de levar a felicidade a ela, durante as fases de internação, que, tristemente, algumas vezes, conferia com as datas comemorativas. No primeiro Natal em que Débora passou no hospital, o jovem aderiu à idéia de uma amiga do casal. Os dois conseguiram arrecadar centenas de presentes entre conhecidos. Na noite de 24 de dezembro, ele entrou fantasiado de Papai Noel na instituição, com a ajuda das enfermeiras, para entregar todos os presentes. “Foi um dos Natais mais felizes da vida dela, mesmo estando trancada em um quarto de hospital”.

Diego, quando questionado diversas vezes sobre permanecer ao lado de alguém doente na adolescência – fase que proporciona diversão por descobertas -, sempre afirmou a qualquer pessoa, que o namoro é o primeiro passo para o casamento e que, sendo o relacionamento constituído na religião católica, há a afirmação “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-a e respeitando-a por todos os dias da vida”. Sendo assim, conforme o jovem, o casal deveria seguir desde o início o princípio, pois o primeiro passo para o casamento, sem dúvidas, é o namoro.

Embora o tratamento inicial de Debora não tenha sido suficiente para eliminar a leucemia, e ela tenha sofrido com enjôos, corpo debilitado e perda de cabelo, Diego continua a acompanhar a namorada na árdua jornada de sofrimentos que se estende até o momento. Desde 2007, ele permanece ao lado da namorada durante a ida em hospitais, levando sempre mensagens de otimismo e esperança.

A situação atual de Debora

Após uma árdua batalha, com tratamentos e quimioterapia intensificada, Debora está prestes a realizar o transplante de medula. O doador será o seu próprio irmão, Yuri, de 19 anos completos e cem por cento compatível. Durante três anos lutando contra a doença, Debora pode contar com a ajuda do namorado Diego, que sempre se mostrou atencioso.
No entanto, ele está preocupado com os riscos da cirurgia e com o comportamento que deverá adotar nos próximos dias, pois, pela primeira vez, em mais de quatro anos de namoro, ele ficará sem ver a namorada por mais de uma semana.

O procedimento de transplante de medula exige isolamento completo, e somente os pais de Debora poderão a ver, no período mínimo de quarenta dias. Mesmo acreditando que a espera para abraçar Debora vai ser longa e que a saudade lhe arrancará algumas lágrimas, Diego faz planos não só para o momento que o casal vive, mas para a vida toda. “Não escondo de ninguém que meus planos são de formar uma família muito feliz com ela. Uma família que vai saber enxergar o mundo de uma maneira diferente de todas as outras. Mas também não podemos prever o que vai acontecer no futuro, mas, ao menos podemos planejar. E os planos podem considerar uma certeza: fomos feitos um para o outro”.

Hoje, Diego continua a ver Débora como uma pessoa muito linda por dentro e por fora, com um coração gigante, que sempre soube compreender todas as preocupações do namorado, mas também alegrias e tristezas. Nos quatro anos de relacionamento, que nunca foi marcado pelo ciúme, cada um entendeu o espaço do outro. Os dois, embora rodeados de dificuldades, sempre mantiveram a confiança como uma chama acessa no namoro.

Contudo, nos últimos tempos, ele a vê de um modo diferente. “Tudo que ela já enfrentou e ainda vai enfrentar, sendo forte, determinada, confiante e sem reclamar, me demonstraram que acima de tudo ela é uma fortaleza. Sempre costumei chamar a ela de minha pequena, mas a vida está demonstrando que ela é muito maior e mais valente do que eu, e isso me faz sentir a cada dia mais orgulho de ser o namorado dela”, diz Diego chorando.

Casal unido mesmo após a descoberta de doença - Arquivo Pessoal
Casal unido mesmo após a descoberta de doença – Arquivo Pessoal

Matéria divulgada na edição de junho do jornal Hipertexto (jornal mensal veiculado na Pucrs).

3 Respostas to 'Um amor à prova da leucemia'

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  1. amiga said,

    infelizmente nossa querida amiga débi faleceu hoje dia 13/07 pela manhã.
    vai com deus amiga. te amamos

    • Caroline said,

      A Débora chegou a fazer o transplante ? tenho um grande amigo que esta com a doenca e o transplante esta marcado para final de novembro. Ele tem 36 anos e é dificil acreditar que ele esteja passando por isso. Regressei ontem de Estolcomo, cidade onde ele mora, e tentei ao maximo demonstrar o meu lado positivo para ele. Ele vai vener esta batalha.
      um grande abraco

  2. amiiga said,

    A Débora foi um anjo guerreiro,determinado e forte!
    Infelizmente no dia 13/07/2009 Deus quis levar ela do nosso mundo…Ela era tão especial que Deus quis que ela espalhasse esse brilho todo no céu!
    Vá com Deus querida!

    Nunca será dito um adeus,mas sim um até logo!


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