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Tendências do Jornalismo

Posted in famecos,livros por Morgana Gualdi Laux em junho 24, 2009
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Tendências do Jornalismo (Editora Ufrgs, 141 páginas e R$ 11,00), livro de autoria de Francisco Rüdiger, professor titular da Faculdade de Comunicação da Pontifícia Universidade Católica, Mestre em Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, é um estudo da história do jornalismo no âmbito riograndense. Rüdiger destaca os principais veículos, organizando de maneira clara ao leitor uma cronologia, que apresenta desde a inserção do primeiro jornal no Rio Grande do Sul, até os dias de hoje, em que foram consolidadas a formação das atuais redes e monópolios de comunicação também no estado gaúcho.

A obra Tendências do Jornalismo contem uma apresentação, considerada breve e que relata aspectos fundamentais do campo da comunicação, abrangidos de modo profundo posteriormente na obra. Rüdiger rapidamente informa sobre os tipos de imprensa que o Rio Grande do Sul apresentou até o momento. No entanto, o autor, afirma que nem todas elas possibilitaram a formação do conceito de jornalismo, pois a prática social caracteriza-se como um componente do processo de formação da chamada opinião pública, sendo ela variável conforme o período estudado. Detalhe esse que leva o leitor ao desejo de saciar os conhecimentos a respeito do panorama sobre o jornalismo no Rio Grande do Sul.

Para iniciar a análise aprofundada sobre a prática da comunicação no estado, Rüdiger relaciona o elemento opinião com o surgimento do primeiro jornal gaúcho. O Diário de Porto Alegre, fundado em 1827 e patrocionado por Salvador José Macial, serviu como ferramenta do governo para responder a enfrentamentos, devido a um conjuntura política que o país estava vivenciado na época. Considerado o órgão oficial da administração provincial, o Diário de Porto Alegre não retratava os problemas da cidade ou como era a Capital. Assim como os outros, ele apresentava atos do governo ou de matérias de ordem geral. O Diário, então, se estabeleceu durante um clima de insatisfação local com a política imperial, relativa aos produtos de exportação da província (charque e couro).

A inserção do primeiro veículo períodico foi em consequência de enfrentamentos políticos. Contudo, a partir do desenvolvimento econômico, elemento considerável também, pois a sociedade gaúcha demostrava o aumento de capacidade em relação a administração, a política e a nível social, que, consequentemente, podemos relacionar também com a progressão de um público letrado, oito anos depois do surgimento da imprensa foram criados 32 jornais. Entre eles podemos mencionar: O Constitucional Rio-Grandense, Sentinela da Liberdade, O Noticiador, O Recompilador Liberal e o Mercantil do Rio Grande. Essa demanda de veículos, então, foi participante do contexto político ocorrido no momento.

As tipografias constítuiam pontos de reuniões de facções políticas. Sendo assim, prática jornalística em si, não caracterizava o período, pois os períodicos eram simples meios de difusão ideológica. A política relacionava-se com o ato do surgimento da tipografia, entrentato, o veículo servia como publicidade para ela própria. Durante a época Farroupilha (1835-1845), por exemplo, a imprensa dos farrapos, oficialista, se caracterizou por publicar os ator oficiais do governo farroupilha – a República Rio-Grandense do Piratini. A imprensa legalista, ou seja, combatente, apresentou dois grupos: o radical e o moderado. O líder na imprensa do grupo radical foi Claude Dubreuil. Até 1945, os jornais eram vendidos nas oficinas onde eram impressos. O conceito que os dominava era político-doutrinário. Os pasquins utilizavam linguagem pesada e ataques morais, o que resultava em atos de violência.

No segundo capítulo, denominado Jornalismo Político Partidário, há o relato sobre o surgimento desse segmento de jornalismo, que foi expressamente relacionado ao processo de transformação dos tipógrafos em cargos políticos, após a revolução. Partidos montaram empresas e lançavam períodicos. Sem dúvidas, nesse momento, ocorreu uma maior organização editoral. O jornalismo político partidário desenvolveu a concepção de que o papel dos jornais é essencialmente opinativo (página 37, Rüdiger, Tendências do Jornalismo). No entanto, jornalismo continuou sendo uma atividade precária, pois o fato do próprio sistema escravista, vigente até 1888, delimitava um público que na sua minoria era letrado. Outra razão para a instabilidade seria as publicações e a dependência em relação a assinaturas. Para complementar as informações, Tendências do Jornalismo apresenta um quadro comparativo com o ano e número de períodicos lançados, ou seja, um recurso fundamental para compreender a expansão da imprensa entre os anos de 1850 a 1930.

Ainda no segundo capítulo da obra, o pesquisador na área jornalística coloca a par os leitores sobre o papel da imprensa na questão servil. Ele exemplifica com A Voz do Escravo, folha pelotense, que refletiu sobre o movimento abolicionista. Fora isso, O Mercantil, em 1883, criou uma caixa libertadora, com a finalidade de arrecadar fundos para alforrias. Entretanto, vale ressaltar que o modelo de Jornalismo Político Partidário foi promovido pelo órgão do Partido Liberal, denominado A Reforma (que terminou como folha do partido federalista. Criado em 1869, o veículo circulou em Porto Alegre e apresentou-se ao público como uma folha doutrinária. Não obstante, outros títulos também tiveram suma importância no contexto rio-grandense até 1930. O Conservador, que teve sede na Capital, fundado em 1879 foi um deles, além do jornal A Federação, publicado pelo partido republicano. Contudo, foi A Federação que resumiu o modelo de jornalismo político partidário vigente no Rio Grande do Sul, afinal a folha mostrou-se importante no momento que funcionava de modo significante na articulação do movimento republicano da província. Ao mesmo tempo que cita os jornais de grande participação no Estado, Rüdiger aponta a política e violência marcadas no contexto histórico, pois os conflitos entre os veículos se davam em razão da participação política dos mesmos. A imprensa partidária, no entanto, chegou ao seu declínio, devido a mudanças na estrutura econômica da sociedade e a alteração na estrutura política, na qual, pode-se afirmar, o Estado Novo foi responsável. A crise econômica que ocorreu depois da primeira guerra mundial proporcionou aos jornais altos custos de produção. A estrutural social dos indivíduos também estava sendo alterada e, portanto, o jornalismo político-partidário não condizia com a ascensão das camadas médias. No terceiro capítulo da obra, o jornalismo literário independente no estado gaúcho ganha relevência. A respeito desse campo, o autor explica sobre as necessidades culturais da sociedade e da camada intelectual pertencente a ela. Um dos exemplos do início nessa área é a fundação do Partenon Literário, em 1869. É importante salientar que o período de apogeu do jornalismo literário remete-se ao ciclo entre 1880 e 1920. O Noticiador, que se apresentou como o primeiro jornal publicado no interior gaúcho e que prometia cumprir a função da discussão literária de assuntos do cotidiano para a época, foi um dos jornais de destaque.

O estágio de jornalismo literário, especializado na difusão de notícias e discussão de assunntos atuais para a época, desaparece cedendo lugar à tecnologia da máquina vapor, recurso esse que proporciona modernização ao parque gráfico da imprensa. No ano de 1920 houve a criação da ARI. Na seqüência surge uma nova concepção, o jornalismo informativo moderno representado pela fundação do Correio do Povo, no ano de 1895 por Caldas Júnior. O veículo se destacou por apresentar ao público neutralidade quanto aos assuntos polítcos. o sucess dele se realizou em detrimento da postura editorial exercida pelo proprietário e diretor de negócios do jornal. O modelo de concorrência do Correio, na época, foi o jornal O Diário de Notícias, lançado em 1925, que alcançou o posto de segundo maior do estado no ano de 1930. Ao ler a produção do professor de comunicação da PUCRS consideramos que a partir de 1930, o jornalismo empresarial, então, viu sua consolidação com a etapa de desenvolvimento econômico, ou seja, com o processo de industrialização.

No interior do estado, a situação, porém, foi diferente. O jornalismo sofreu a decadência por utilizar a política em sua estrutura, o que não condizia com as mudanças da sociedade no momento. Além de apresenta falta de sustenção econômica. A imprensa no interior, então, foi absorvida pela imprensa da Capital. No último capítulo, o rádio ganhou destaque, pois também foi explorado pelas grandes empresas como principal meio de informação. Destaque para a Rádio Sociedade Gaúcha e também para o Repórter Esso, que apareceu como um dos noticiários mais importantes. Sobre o telejornalismo, o primeiro na área foi Os Diáros Associados, fundando a TV Piratini (hoje TVE) no ano de 1959, na qual apresentava poucos atrativos na época, seja pelo excesso de fala, seja pobreza de imagens, decorrentes dos escassos recursos e tecnologia, por ser um meio novo. O panorama começou a mudar na década de 70 com feitos realizados pela TV Difusora.

Na segunda metade do século ocorreu a inserção da empresa RBS no estado. Consolidada hoje como a uma das maiores empresas do sul, a RBS teve seu responsável: Maurício Sirotsky, que foi sócio da Rádio Gaúcha e sócio-diretor da Zero Hora. A Rede Brasileira Sul de Comunicação desenvolveu novos métodos de gestão empresarial nos veículos pertencentes a ela, além de utilizar a tecnologia, enquanto a concorrência se prendia a ferramentas de sucesso das primeiras décadas. Consequentemente, essa concorrência se estagnou e ascedeu a monopolização atual do grupo. No ano de 1982, por exemplo, a Zero Hora bateu o Correio do Povo em relação as tiragens. O jornal roseo, como era chamado inicialmente o Correio do Povo, fechou em 1984 e reabriu no ano de 1986, sob o comando de uma nova direção. Para finalizar, muito do sucesso da RBS se deve a filiação a Rede Globo. Assumindo controle e inovação jornalística pelo telejornalismo, a RBS utilizou a propagação de notícias regionais, dando visibilidade e conhecimento da realidade do Estado. O grupo ainda realizou aquisições dentro e fora do estado, como podemos analisar com o Diário Catarinense, por exemplo.

Portanto, o livro Tendências do Jornalismo, do renomado professor Franscisco Rüdiger, é um estudo aprofundado sobre o jornalismo no Rio Grande do Sul. Ele pode ser empregado como fonte de pesquisa para eventuais trabalhos, mas também como ferramenta indispensável para se conhecer a prática social que se consolidou no estado. Estudantes de jornalismo devem saciar suas dúvidas com a obra e curiosos devem aprender com as muitas informações que o autor disponibiliza. Em suma, a produção de Rüdiger é capaz de relatar o panorama de forma eficaz ao leitor, levando então, conhecimento propriamente dito a respeito das transformações do jornalismo desde a época de inserção do Diário de Porto Alegre, até a consolidação do Grupo RBS.

Uma resposta to 'Tendências do Jornalismo'

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  1. Bruna said,

    Interessante sua resenha.


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