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Fotos do Grêmio / Texto sobre baltazar

Posted in Futebol por Morgana Gualdi Laux em julho 8, 2008
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Para relembrar Grêmio e São Paulo, em 1981, época do grande Baltazar..

O texto a respeito do Baltazar:

No princípio, eles se negam a reconhecer a superstição. Dizem que as manias, tiques nervosos, medalhões e sinais da cruz executados antes das partidas nada mais são que hábitos comuns, não uma crença indispensável de que o acessório há de tornar-se um elemento que decida o futuro de uma partida, um lance ou jogada.

Mesmo tendo a plena convicção de que não possuem convicção alguma de que, ao entrar com o pé direito no gramado o jogo estará ganho, ou que os três sinais da cruz desenhados sobre testa e peito nada têm a ver com o destino de uma competição, eles jamais entram em campo sem antes dialogarem por alguns minutos com alguma entidade divina, metafísica, ou o diabo que for.

Até que, em determinada altura, surgem os Atletas de Cristo como que por geração espontânea. Ao leitor a nomenclatura não deve ser estranha, basta puxar à memória algum relato dos homens que em certa feita deixaram o gramado jogando às mãos de Cristo o mérito pela conquista, gol ou vitória. Esses sim, autoproclamam-se membros do povo eleito e atribuem os feitos da atuação esportiva à oração.

Este mesmo leitor, em cuja mente logo surgem nomes como os de Marcelinho Carioca, Muller, César Sampaio e Evair, encontrará algumas dificuldades em relembrar algum representante dessa facção antes de escutar as primeiras releituras da Palavra de um certo Baltazar Maria de Morais Junior.

Um dos precursores nessa tarefa de intercalar passes, chutes e gols com elucidações do Salmo 116, o ex-atacante de Grêmio, Palmeiras, Flamengo, Celta de Vigo e seleção brasileira somou ao longo de sua carreira algumas anedotas de tal forma estranhas que impedem com que o torcedor lembre-se dele como jogador comum. Tanto é que, dentre todas as conquistas que marcaram a passagem do atleta pelo futebol gaúcho, por exemplo, a história sobre o dia em que esquecera a Bíblia em casa momentos antes de embarcar rumo ao Rio de Janeiro, onde o Grêmio enfrentaria o Flamengo, seja talvez a ilustração mais perfeita do que foi Baltazar em campo.

Conta a lenda que, em certa feita, o atacante tricolor acabava de entrar no avião e, ao encostar a cabeça na poltrona, procurou em vão a Bíblia em sua bolsa. Um calafrio percorreu então a noção de situação do jogador que, imediatamente, comunicou ao chefe da delegação que não voaria. Pálido, Baltazar deixou todos os jogadores do elenco gremista preocupados ao pedir insistentemente para descer naquele exato instante. Nada lhe servia de alento: sem a Bíblia na bagagem, não haveria viagem, não haveria vôo, não haveria gols.

“Tenho que buscar o Livro de Deus”, alegou o atacante ao chefe da delegação. “Nem que seja para pegar o vôo seguinte, pagar a passagem do meu próprio bolso, e me encontrar com vocês lá no Rio”.

Ao ter o pedido negado, por pouco não desmaiou. Comovido com aquele desespero, o chefe da delegação ofereceu a própria Bíblia. Baltazar não aceitou: queria a sua, de tantos anos.

Milagre – Anos mais tarde, o ex-atacante do Grêmio guardaria aquela experiência como a pior viagem de sua vida. Durante todo o trajeto, não falou com ninguém: fechou o rosto e chorou discretamente.

Aqueles que o acompanhavam na viagem poderiam jurar que ele estava dopado. Quando o almoço foi servido pela aeromoça, ele continuava inerte, feito um robô, esperando que uma força divina o eliminasse daquele desespero. Não sentia o gosto do que ingeria, O pensamento andava longe. Algo que não foi alterado nem mesmo quando os amigos lhe compraram, assim que desembarcaram no aeroporto do Rio, uma Bíblia na primeira livraria que avistaram.

O esforço dos amigos fez com que Baltazar aceitasse a oferenda como que por respeito. Mas sabia que, no fundo, sem a Bíblia original, nada poderia fazer contra os adversários dentro de campo. Mal chegara ao hotel, telefonou ligeiro para a casa de sua noiva, a fim de relatar seu desespero. “Estou perdido”, sentenciou.

Em campo, não deu outra. Mal pegava na bola, e os adversários flamenguistas caçavam-no como uma presa fácil e sem defesa. Às vezes sem querer, numa entrada pouco pretensiosa, acertavam-lhe o tornozelo, o joelho, deixavam-lhe marcas – algo que só fez aumentar o terror das horas. Era a pior partida de sua vida.
Quando voltou a campo para o segundo tempo, porém, sentiu que algo havia mudado. Transbordado por uma noção então não apreciada desde que a bola começara a rolar, Baltazar ganhou um ar de auto-confiança que pouco mais tarde tornou-se peça fundamental ao marcar com um arremate fatal o gol da vitória do Grêmio por 1 a 0. “Senti que Deus havia perdoado o meu lamentável esquecimento”, confessou anos mais tarde.

A resposta, porém, ia além da misericórdia divina. Ao voltar aos vestiários, sentindo que todo o peso do mundo havia sido retirado de suas costas, Baltazar tomou banho, trocou de roupa e, ao abrir a bolsa, sua alma transbordou em alegria: por milagre, a Bíblia ali estava. Como se, durante o intervalo, ela tivesse voado de Porto Alegre à capital fluminense para iluminar os passos de Baltazar em campo.

A explicação para o feito, porém, não constava nas ações da metafísica, mas era sim fruto da atuação de sua esposa que, ao desligar o telefone com o jogador, correu ao apartamento dele com a cópia da chave, pegou a Bíblia, tomou o primeiro avião, desceu no Rio, chegou de táxi ao Maracanã já com o jogo em andamento, foi ao vestiário, pediu a devida permissão ao roupeiro, colocou o Livro de Deus na bolsa do noivo e, sem dizer nada, correu a testemunhar a colheita do esforço a poucos metros, já dentro de campo, onde Baltazar, para alegria de toda a torcida gremista, salvou sua equipe. “Não fosse isso, não sei o que teria acontecido naquele jogo”.


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  1. Tahnks for posting


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